O Olho é uma espécie de globo,
é um pequeno planeta
com pinturas do lado de fora.
[...]
Mas por dentro há outras pinturas,
que não se vêem:
umas são imagens do mundo,
outras são inventadas.
(Cecília Meireles)


quinta-feira, 30 de abril de 2009




Um Conto de Samhain
[Minha adaptação livre da estória original, de autor desconhecido]

Selene sentou-se no chão e olhou para o céu claro, limpo e estrelado. O reflexo da Lua cheia na água a fez pensar numa pérola, redonda e branca... mas logo as crianças chegaram, e sentaram ao seu redor, interrompendo seus pensamentos.

Sorrindo, Selene olhou para cada uma delas e perguntou: Comecemos?

Vou contar para vocês a estória de como o Cornudo se sacrifica todos os anos para garantir força à Grande Mãe, para que esta possa vencer o frio do Inverno.

Estão prontos?

As crianças acalmaram-se para ouvir Selene.

O Sol sumia no Oeste, e as aves noturnas já deixavam seus ninhos, algumas ameaçando cantar. Debaixo das árvores, correndo para suas tocas, os pequenos animais apressavam-se, fugindo do frio cortante que se faria presente em pouco tempo. Aquela era a época do Cornudo, e só as criaturas mais fortes sobreviveriam ao inverno que se aproximava.

O Sol baixou, baixou, até que só se via uma fina linha de separação entre céu e Terra no horizonte. Tudo ficou avermelhado, com um ar mais mágico. Então, a luz se foi.

A Lua se fez crescente no céu, um vento gelado começou a correr por entre os troncos seculares das árvores.

Ouvia-se agora o som de uma flauta. Tão límpido e cristalino que a superfície do lago, antes parada, tremulou ao som da melodia alegre.

Todos os animais da floresta pararam para ouvir, e mesmo as aves noturnas cessaram seu canto orgulhoso. Por entre as árvores, a flauta ressoou por toda a floresta. Mais nada se ouvia.

Atravessando o lago, um pouco depois do Grande Carvalho, estava a fonte de tal encantamento: sentado numa pedra coberta de limo, balançando ao som da flauta de bambu, um ser robusto, com tronco e cabeça de homem, pernas cobertas de pêlo, cascos de bode e grandes chifres pontiagudos.

Ele observava a donzela que dançava ao som de sua música, logo à sua frente. Ela tinha longos cabelos que escorriam até a altura da cintura. Os fios sedosos acompanhavam os movimentos da dança, pés habilidosos moviam-se descalços sobre a grama.

A Deusa nunca havia estado tão bela quanto naquela noite. Os dois brincaram nus, na noite fria da floresta, e alguns animais se juntaram ao redor da clareira. Após algum tempo, cansada Ela sentou-se, e olhando para o Cornudo, esperou que a música terminasse.

Quando o Deus afastou a flauta de seus lábios, as figuras dos animais e da Donzela desapareçam, eram apenas lembranças... A Deusa agora recolhia-se grávida no Mundo Subterrâneo, pronta para dar à luz dentro de pouco tempo.

Era necessário que o Sol Novo nascesse.

O Cornudo levantou-se com tristeza e caminhou até o lago, para observar seu reflexo. Já estava velho e fraco, mas ainda continha grande energia... energia necessária para que a Deusa aguentasse o parto que se seguiria em menos de dois meses.

Já não podia continuar a viver... a Terra precisava de seu sangue, o Sol Novo de sua energia.

Um grito ecoou em sua mente: a Deusa sofria. Aquele era o momento certo. O Cornudo olhou para os céus, e olhando para a mata, despediu-se de sua casa.

Tambores rufaram quando Ele ergueu suas mãos e pronunciou as palavras secretas. Envolto em brumas desapareceu.

Aqui, numa clareira nas montanhas, já distante da floresta, ouvia-se no Círculo o som dos tambores. Uma música rápida e repetitiva que tornava o ar quase palpável.

O Velho Cornudo surgiu no centro do círculo, com um olhar decidido em seu rosto. Tinha agora em suas mãos uma adaga ritual, e quando Ele a levantou apontada para seu peito os tambores cessaram.

Cernunnos fechou os olhos, e o momento se fez silencioso... aqueles segundos duraram milênios. Ele levou a adaga a seu peito, e os tambores voltaram a tocar.

Quando a lâmina fria rasgou a carne do Deus, não houve um grito, sequer um sussurro de dor, apenas o som do sangue derramando-se sobre a terra. O Cornudo ajoelhou-se, com calma em seu olhar. Com as próprias mãos, abriu a ferida para que os Espíritos Ancestrais recolhessem o sangue.

Quando o Círculo tornou-se silencioso novamente, quando todos os Espíritos Ancestrais já haviam partido, o Deus deitou, virou-se para as estrelas, e esperou que a paz voltasse a reinar sobre a floresta. Ainda sentia o sangue escorrendo para fora de seu corpo, regando o círculo sagrado em que repousaria para sempre.

Do solo, ou talvez de lugares além das estrelas mais distantes, elevou-se um cântico, murmurado e pausado. Talvez fossem as pequenas criaturas, ou ainda as estrelas, despedindo-se de seu Deus...

Hoof and Horn, Hoof and Horn
All that Dies Shall be Reborn.
Corn and Grain, Corn and Grain
All that Falls Shall Rise Again


O Cornudo sentiu sua energia retornando ao útero da Grande Mãe, que agora deixava de sofrer. Ele morreu sorrindo, sabendo ser a semente de seu próprio renascimento.

Os Espíritos Ancestrais então romperam a barreira entre os dois mundos e caminharam por sobre a Terra, espalhando o sangue e a força do Deus, para que pudéssemos sobreviver através dos tempos difíceis que se aproximavam.

Selene limpou uma lágrima que escorria de seu rosto. As crianças ainda ouviam atentas.

É por isso que os Espíritos Ancestrais vêm ao nosso mundo nessa noite tão escura. Eles trazem consigo um pouco do sangue do Deus Cornudo, que só renascerá em Yule, o Solstício de Inverno. Trazem conselhos, proteção e promessas de que nos irão guiar durante todo o período escuro do ano.

Devemos, portanto, saudar os Espíritos Ancestrais porque, sem eles, a semente do renascimento não seria espalhada.

Agora vão para a Casa Grande, já vamos começar o ritual.

Deixando que as crianças corressem na frente ela parou no meio do caminho, permitindo-se escutar os sons do além, e então, de algum lugar, chegou aos seus ouvidos um cântico...

Hoof and Horn, Hoof and Horn...

Selene continuou a caminhar em direção à Casa Grande.

Lu às 21:30




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